setembro 11

PARABÉNS PARA MIM

 

Hoje é o dia do meu segundo aniversário. Aconteceu há 16 anos atrás de forma absolutamente inesperada pois nunca imaginei que fosse possível renascer em vida ou coisa parecida. Lembro-me do momento exato, daquele milionésimo de segundo que pareceu durar uma eternidade, onde o tempo parou. Foi como se meu corpo tivesse sido atravessado por um raio encarregado de rearrumar a minha percepção de mim e do mundo ao meu redor. Foi no instante em que vi Giulia pela primeira vez, saindo de dentro, ainda silenciosa, daquela outra criatura maravilhosa que se encarregou de dar-lhe a vida.

Durante as 24 horas seguintes, vivi uma espécie de transe eufórico que jamais serei capaz de traduzir em palavras. Uma sucessão indescritível de sentimentos e sensações poderosíssimas, infinitamente maiores do que eu, das quais guardo algumas lembranças sólidas. A primeira foi a de uma gigantesca necessidade de perdoar e de ser perdoado que se apoderou de mim. Tive uma vontade incontrolável de correr até meus pais e dizer com os olhos que finalmente havia entendido tudo aquilo que eles tinham dito e feito a vida inteira por mim. Todas as coisas que eu jamais havia compreendido sobre eles, instantaneamente tornaram-se óbvias.

Houve um instante também, bem no início, no qual tive uma experiência de transcendência. Não no sentido exatamente espiritual mas sensitivo. Uma fração de segundo na qual deixei de ser “eu” e passei a ser “todos”. Um troço muito doido…. Foi quando realmente compreendi a condição humana, a natureza que nos acomuna, o quão minúscula é a minha existência, o quanto enormes são as conexões que nos unem. Somos todos parte de uma única vida.

Nos meses seguintes comecei a notar uma coisa nova e estranha. Mesmo estando fisicamente sozinho num quarto de hotel não conseguia me sentir a sós comigo como antigamente. Nunca mais consegui nem muito menos quis, mas não conseguia entender como e nem por quê. Só anos depois, assistindo um programa sobre os portadores de deficiências físicas, consegui entender do que se tratava. Um homem que teve a perna amputada dizia que, mesmo sabendo que a sua perna não estava ali, ele continuava a sentí-la junto ao corpo. Foi aí que tive o estalo: como poderia me sentir sozinho se uma parte de mim não estava comigo? Giulia não me pertence mas é uma parte de mim. É a minha transcendência do meu corpo. Giulia sou eu sem mim. Pode parecer louco mas é muito simples: a vida não nos pertence, apenas nos permite.

Passados tantos anos, hoje tenho que me esforçar muito para lembrar quem eu era nos primeiros 32 anos da minha vida, como eu era sem essa parte tão importante de mim. Porque hoje não há dia em que eu viva e respire sem ela. Não faz diferença alguma o que ela faz, do que ela gosta, o que ela pensa, o que ela sinta. Basta apenas que ela exista. Para que eu possa continuar existindo em mim mesmo e além de mim.

Hoje é dia 10 de Setembro. Dia do início da minha primavera interior. Dia em que relembro do meu renascer, daquele instante em que o mundo parou e finalmente começou a fazer sentido pra mim: VOCÊ


 

Desculpem se o texto sai completamente da temática do Blog, mas hoje quis abrir uma exceção. Esse texto foi escrito há três anos atrás e não há nada que me defina melhor do que essas palavras. Tem gente por aqui que gostaria de saber um pouco mais sobre mim e acho que isso é tudo que alguém precisa saber de mim pra me conhecer.